31.7.06

Tragédia Urbana

Se este texto pudesse ser sonorizado, ao lê-lo você ouviria a música "De frente pro crime", de João Bosco e Aldir Blanc. Achei o contexto da música semelhante e que por tanto completaria a situação por mim presenciada - um homem, de seus vinte tantos anos presumíveis, de repente caiu pra trás, no chão da rua! - Nunca imaginei ser possível tal fato! Não esse, mas o que se seguiria - ninguém acudiu o rapaz. Pior, ninguém sequer olhou pra ele.

Isso me encheu de angústia. Sou do tipo que ainda sente indignação diante de atos injustos. Melhor, não me calo!

Foi através da janela do ônibus que vi a situação, aliás todo o acontecimento - o rapaz me chamou a atenção pela forma como andava, pareceu-me lento demais... Seus olhos foram se abrindo, abrindo... Como que buscando focar algo. E depois, pumba! Estava no chão, de barriga pra cima. Algumas pessoas, que se encontravam comigo dentro do ônibus, também perturbaram-se com a situação do rapaz, mas as outras viraram o rosto. Não queriam envolvimento.

A reação de aparente indiferença me fez pensar no quão doente está a nossa sociedade. Pelas ruas das nossas cidades, vivem dezenas de pessoas em situação de indigência, o que beira as raias da normalidade. No nosso cotidiano é banal ver um semelhante jogado no chão qual um saco de lixo.

Estaríamos absorvendo este aspecto da injustiça social para o campo da normalidade, sem que nos apercebamos. Estamos na verdade nos conformando com a inexistência do auxílio público e a ineficácia da vontade política de mudança. Como também estaríamos presos à rede de individualismo, tão bem desenvolvido pelo sistema, no qual é "Cada um por si e Deus por todos!".

Talvez a atitude de indiferença seja uma estratégia de defesa para suportar essa descrença e não se deixar abater. Como que negando o sofrimento alheio, calasse o próprio. Esse comportamento faria parte de um processo de cristalização. Posteriormente se transformaria em cilada: insensibilizando para a percepção da injustiça implicaria na impossibilidade da transformação, na busca de respostas e soluções criativas.

A vida se tornou um espetáculo

Há muito tempo que a satisfação de olhar o outro ultrapassou as fechaduras das portas, as frestas das janelas. A expressão "olhar a vida alheia" tomou dimensões insólitas, favorecida pelo conjunto dos meios de comunicações de massa. Este seria um elemento estimulante da curiosidade, da avidez pelo cotidiano alheio.

Atente para a transformação do observado, que num primeiro momento era passivo e inconsciente da sua condição, na maioria das vezes - preservando uma áurea de mistério, de proibido -, mas que hoje ele interage, desejando que a exibição gere lucros, notoriedade - assume uma atitude de consentimento lascivo, sem fronteiras de ostentação. Já ouviu falar em "fulano teve os seus minutos de fama?" Pois é... A vida se modifica e com ela os aspectos sociais, que hoje não importam mais.

É a cultura da exposição, muitas vezes gratuita, encontrada nos sites de relacionamentos, dos quais qualquer um tem acesso ao comportamento social do outro, compartilha das relações pessoais. São os realytes show, dos quais se pode ver, ao vivo, os conflitos gerados num ambiente programado para satisfazer as necessidades do observador e do observado - inicialmente distintas, mas que se confundem num processo de causa e efeito, eclodindo na opinião pública, IBOPE.

Não excluindo os programas exploradores da miséria humana; as revistas de fofocas, especializadas também na divulgação do estilo de vida dos famosos. É um verdadeiro banquete voyer e de exibição!É o consumo consumindo vidas!

Essa nova realidade contemporânea não favorece a existência de conteúdos e tampouco se preocupa para que tal se estabeleça. O que de verdade existe é uma máquina perversa criadora de estruturas que fortaleçam o consumo de produtos para atender essa espetacularização da vida - na maioria produtos que se tornaram obsoletos em países desenvolvidos: webcam, computadores, câmeras digitais, celulares com múltiplas funções; que antes atendiam ao serviço de inteligência, informativo. Atendendo à demanda comercial imposta pela globalização.

As situações surgidas desse processo são transitórias, porque há uma indução ao ineditismo, modernismo. Propiciando uma contaminação progressiva a toda sociedade, tornando-a imagem-objeto e finalizando com o surgimento de relações banais, cuja alienação recíproca é a essência e a base da sociedade existente.