6.9.06

Não mete essa!

Época de eleições e promessa de uma sociedade melhor andam de mãos dadas.
O discurso é o mesmo e os personagens? Ah, é aquela estória " Vocês
lembram da minha voz? Continua a mesma, mas os meus cabelos... Quanta
diferença!" – Figuraças! Não querem largar o osso! Por conta disso
desfilam no cenário político há muitos anos, em parte a culpa é do povo
(de todo mundo!) porque se iludia com pouco. Ah, mas convenhamos, os caras
têm talento e retórica, né? Não desmerecendo, lógico, os que trabalham
para
o bem público e que carregam no seu histórico décadas de luta e militância.
Precisa-se separar o joio do trigo! Há uma parcela considerável de
trapalhões e
daqueles que querem tirar proveito da situação – uma visão otimista quanto à
quantidade de picaretas. Numa canetada desviam o dinheiro que deveria ir
para a saúde, para a tal educação de qualidade, para o combate da tão
famigerada violência.
Xiiiiii, que cheiro estranho... Não tão estranho assim, afinal todos os
dias a
imprensa, com seus interesses, prioridades e cores próprias, raspa a lama
que assola o nosso cenário político e aponta as peripécias, as falcatruas:
mensalão,
mensalinho, sanguessugas... E o odor aumenta mais e mais...
O povo embalado pelo samba "Comunidade Carente", cantada pelo Zeca
Pagodinho, já começa a esboçar sua reação e intenção: " vai levar um pau
pra deixar de caô e ser mais solidário/ nós somos carentes, não somos
otários/ Pra ouvir blá, blá, blá em cada eleição." Já começam a sacar que
devem repensar no bem coletivo e que cesta básica, dentadura, laqueadura
de trompas - devem estar incluídos num programa de Assistência Social pelo
fato de uma situação de fragilidade de condições e não atrelada ao
Assistencialismo que fortalece a idéia de prestação de "ajuda" e relação
de "gratidão", desnorteando o direito que a população tem ao amparo e o
dever do Estado em praticá-lo -, não é suficiente para tirá-los do aperto
do dia-a-dia: falta de saneamento básico; hospitais funcionando
plenamente, com funcionários satisfeitos; escolas públicas que tenham um
universo propício ao desenvolvimento intelectual dos alunos e segurança
ativa e inteligente, protegendo o direito de ir e
vir do cidadão.
Sabemos que política partidária não é mole e que há muita corrupção, em
contrapartida devemos entender que o político é um sujeito social e
expressão da mentalidade rançosa de um processo antigo de se fazer
política no nosso país. Não querendo eximir ninguém de culpas, mas
dividindo-as, o pensamento nacional é o "tirar vantagem em tudo!"
Prevalecendo uma idéia fraturada de concentração de poder para um grupo
social/econômico. Através dos nossos erros começamos a aprender que o voto
é uma coisa muito séria, capaz de matar muitos, deixar outros
marginalizados e tantos outros na expectativa de algo que não chega nunca:
a PAZ! PORQUE ELA, A PAZ, ESTÁ DE MÃOS DADAS COM A JUSTIÇA
SOCIAL!

31.8.06

Grades não!



Uma das coisas que me impressionam no ser humano é a capacidade de transformação. Não posso afirmar que seja de adaptação, porque há coisas na vida que ninguém pode se adaptar. Por exemplo,à violência. Não é admissível fechar os olhos ao que acontece na nossa cidade. Mas é interessante ver como cada um reage a tanta negligência do Estado.

Uma parcelada da sociedade, conformada com a falta de punição e medidas preventivas eficazes por parte do Estado, toma para si a responsabilidade de criar mecanismos de segurança que a muito favorecem aos grupos privados especializados em segurança. As novidades no ramo são muitas: blindagem de carros e janelas de domicílio, guaritas com sofisticados elementos tecnológicos ou... pasmem! chips sob a pele! Alguns preferem fugir dos grandes centros ou radicalizam, se refugiam em outro país. Afirmam que a vida já não é possível no próprio país. Abandonam o barco!

E os menos favorecidos economicamente? Esses não podem fugir... mas também sofrem transformações no cotidiano. Enjaulam-se! Não com tantos recursos quanto o primeiro grupo, mas tomam suas providências. Muros altos com cacos de vidro, muitas trancas nas portas e janelas com grades, talvez um segurança de rua, evitam os locais identificados como de risco, não saem de casa em determinada hora. Eles obedecem a um toque de recolher implícito pela Ordem.

Essas transformações, ou deformações, dão uma certa angústia porque quem deveria estar atrás das grades são aqueles que praticam delitos e não o cidadão que anda conforme a lei. Grades são a constatação que não existe uma política de segurança pública eficiente. Elas estão presentes nas escolas, nos parques, nos jardins, em torno dos monumentos...

Mas há um forte movimento de reação contrário ao confinamento, de aceitação à política do toque de recolher. Muitas pessoas não deixam os noticiários influírem em suas vidas e não se confinam. Não admitem perder o direito de ir e vir, e, após um dia de trabalho relaxar, jogar conversa fora, fazer piadas com os últimos acontecimentos, filosofar sobre a vida, e mais, trocar energias, experiências! Não interpreto como alienação, porém como uma recarga. O meu coração se enche de alegria quando vejo movimento nas ruas. Pessoas em bares, cadeiras de praia povoando as calçadas, carrocinhas de churrasquinhos lotadas de pessoas conversando. Tenho certeza que existe um alarme interno em cada um de nós, porém não perder o desejo de viver é muito importante. Não é se trancando em casa que vamos mudar esse momento. Virar as costas, fingir que não faz parte desse caos. Uma hora isso vai lhe custar caro! É necessário que todos nós assumamos nossa parcela de responsabilidade nesse processo. Período de eleição chegando e é preciso saber as pessoas que defenderam os nossos interesses. Não os interesses pessoais, mas aqueles que trarão benefícios para todos.

31.7.06

Tragédia Urbana

Se este texto pudesse ser sonorizado, ao lê-lo você ouviria a música "De frente pro crime", de João Bosco e Aldir Blanc. Achei o contexto da música semelhante e que por tanto completaria a situação por mim presenciada - um homem, de seus vinte tantos anos presumíveis, de repente caiu pra trás, no chão da rua! - Nunca imaginei ser possível tal fato! Não esse, mas o que se seguiria - ninguém acudiu o rapaz. Pior, ninguém sequer olhou pra ele.

Isso me encheu de angústia. Sou do tipo que ainda sente indignação diante de atos injustos. Melhor, não me calo!

Foi através da janela do ônibus que vi a situação, aliás todo o acontecimento - o rapaz me chamou a atenção pela forma como andava, pareceu-me lento demais... Seus olhos foram se abrindo, abrindo... Como que buscando focar algo. E depois, pumba! Estava no chão, de barriga pra cima. Algumas pessoas, que se encontravam comigo dentro do ônibus, também perturbaram-se com a situação do rapaz, mas as outras viraram o rosto. Não queriam envolvimento.

A reação de aparente indiferença me fez pensar no quão doente está a nossa sociedade. Pelas ruas das nossas cidades, vivem dezenas de pessoas em situação de indigência, o que beira as raias da normalidade. No nosso cotidiano é banal ver um semelhante jogado no chão qual um saco de lixo.

Estaríamos absorvendo este aspecto da injustiça social para o campo da normalidade, sem que nos apercebamos. Estamos na verdade nos conformando com a inexistência do auxílio público e a ineficácia da vontade política de mudança. Como também estaríamos presos à rede de individualismo, tão bem desenvolvido pelo sistema, no qual é "Cada um por si e Deus por todos!".

Talvez a atitude de indiferença seja uma estratégia de defesa para suportar essa descrença e não se deixar abater. Como que negando o sofrimento alheio, calasse o próprio. Esse comportamento faria parte de um processo de cristalização. Posteriormente se transformaria em cilada: insensibilizando para a percepção da injustiça implicaria na impossibilidade da transformação, na busca de respostas e soluções criativas.

A vida se tornou um espetáculo

Há muito tempo que a satisfação de olhar o outro ultrapassou as fechaduras das portas, as frestas das janelas. A expressão "olhar a vida alheia" tomou dimensões insólitas, favorecida pelo conjunto dos meios de comunicações de massa. Este seria um elemento estimulante da curiosidade, da avidez pelo cotidiano alheio.

Atente para a transformação do observado, que num primeiro momento era passivo e inconsciente da sua condição, na maioria das vezes - preservando uma áurea de mistério, de proibido -, mas que hoje ele interage, desejando que a exibição gere lucros, notoriedade - assume uma atitude de consentimento lascivo, sem fronteiras de ostentação. Já ouviu falar em "fulano teve os seus minutos de fama?" Pois é... A vida se modifica e com ela os aspectos sociais, que hoje não importam mais.

É a cultura da exposição, muitas vezes gratuita, encontrada nos sites de relacionamentos, dos quais qualquer um tem acesso ao comportamento social do outro, compartilha das relações pessoais. São os realytes show, dos quais se pode ver, ao vivo, os conflitos gerados num ambiente programado para satisfazer as necessidades do observador e do observado - inicialmente distintas, mas que se confundem num processo de causa e efeito, eclodindo na opinião pública, IBOPE.

Não excluindo os programas exploradores da miséria humana; as revistas de fofocas, especializadas também na divulgação do estilo de vida dos famosos. É um verdadeiro banquete voyer e de exibição!É o consumo consumindo vidas!

Essa nova realidade contemporânea não favorece a existência de conteúdos e tampouco se preocupa para que tal se estabeleça. O que de verdade existe é uma máquina perversa criadora de estruturas que fortaleçam o consumo de produtos para atender essa espetacularização da vida - na maioria produtos que se tornaram obsoletos em países desenvolvidos: webcam, computadores, câmeras digitais, celulares com múltiplas funções; que antes atendiam ao serviço de inteligência, informativo. Atendendo à demanda comercial imposta pela globalização.

As situações surgidas desse processo são transitórias, porque há uma indução ao ineditismo, modernismo. Propiciando uma contaminação progressiva a toda sociedade, tornando-a imagem-objeto e finalizando com o surgimento de relações banais, cuja alienação recíproca é a essência e a base da sociedade existente.